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Paula Simão: «A principal patologia causada pelo consumo de tabaco é a doença oncológica»

O tabaco constitui a principal causa evitável de morte antes dos 70 anos de idade em Portugal. Está associado a um vasto leque de doenças, entre as quais o cancro. Falámos com Paula Simão, pneumologista na ULSMatosinhos, que nos traça um cenário alargado do impacto deste malefício. A 31 de maio assinala-se o Dia Mundial Sem Tabaco.

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Nos últimos anos, em Portugal, tem havido um aumento de doenças respiratórias crónicas, que maioritariamente derivam do uso de tabaco. Significa que se fuma mais em Portugal? Qual a realidade no nosso país em termos de consumo de tabaco? Pode traçar um perfil da realidade portuguesa?

Em Portugal, muito se tem feito para contrariar a tendência mundial. As leis que regulamentam o consumo do tabaco, a publicidade nas embalagens, as campanhas e os programas escolares, têm trazido benefícios que se traduzem por uma posição relativamente confortável de Portugal em relação ao consumo de tabaco de entre os países da OCDE. Porém, o envelhecimento populacional, associado ao nosso passado de elevada prevalência de tuberculose (pulmonar), justificam igualmente o aumento das DRC, a nível nacional. Ainda a salientar o passado de pobreza que se viveu na primeira metade do séc. XX, agravada pela crise financeira vivida recentemente, justificam a existência actual de idosos com uma elevada carga de doença (diabetes, cardiovasculares, cáries dentárias…) que predispõem e agravam as DRC.

 

Existe, ainda, um hiato temporal superior a dez, vinte anos entre a idade de início do consumo de tabaco e a idade em que começam a evidenciar-se as primeiras consequências para a saúde que derivam do uso de tabaco, nomeadamente as doenças respiratórias crónicas.

 

A atualização dos dados do Inquérito Nacional de Saúde veio confirmar que a percentagem de fumadores na população residente em Portugal, com 15 ou mais anos, diminuiu de 20,9% (em 2005/2006) para 20% (em 2014). Simultaneamente, a percentagem de ex-fumadores aumentou de 16% em 2005/2006 para 21,7% em 2014. Constatou-se uma diminuição dos consumidores diários no género masculino, de 27,5% para 23,5%, ao contrário do aumento no género feminino, de 10,6% para 10,9%, bem como um aumento do consumo ocasional em ambos os géneros. Há ainda a registar o aumento da iniciação do consumo, traduzido pela diminuição daqueles que nunca fumaram, o que leva a concluir que a redução do consumo de tabaco foi conseguida sobretudo à custa do aumento do número de fumadores que deixaram de fumar.

 

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Neste sentido, qual a eficácia de medidas restritivas em locais públicos e de desincentivo nos maços de tabaco? Fuma-se mais ou menos em Portugal em consequência dessas medidas?

Em 2008 foi criada a Infotabac, uma equipa de especialistas nas áreas de epidemiologia, promoção e protecção da saúde, estatística e direito que procedeu à elaboração do primeiro relatório de avaliação sobre a repercussão da aplicação da “Lei do Tabaco” em Portugal, nos anos de 2008 a 2010.

 

Portugal foi o país europeu com maior diminuição de fumadores passivos no local de trabalho, desde 2005 até 2010. Após a entrada em vigor da Lei, a 1 de Janeiro de 2008, verificou-se diminuição do consumo de tabaco dentro de casa, assim como alteração de hábitos entre os fumadores, quer os relacionados com o fumo activo, mas também nos comportamentos associados à redução da exposição ao fumo passivo. A Lei tem sido percepcionada positivamente, tanto por fumadores como por não fumadores. A maioria é a favor da proibição de fumar em locais públicos, apoia as políticas de controlo do tabagismo e reconhece que as imposições legais têm contribuído para mudar consciências, alterar hábitos, melhorar a saúde pública e a qualidade do ar em espaços fechados.

 

No entanto, os diversos estudos não foram conclusivos sobre a evolução da prevalência de fumadores em Portugal e não permitiram concluir que tenha existido um impacto da aplicação da Lei neste aspecto analisado, pelo que se aguarda para breve uma atualização.

 

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Apesar da muita informação existente, os jovens começam também a fumar. Continua a ser uma questão de afirmação?

Nos adolescentes e jovens experimentar os produtos do tabaco e também o cigarro electrónico está muito dependente da pressão dos pares e poderá realmente representar uma questão de afirmação perante os amigos, sobretudo se estes forem maioritariamente fumadores. É nesta idade que a maioria dos fumadores inicia o consumo que virá a tornar-se diário. Investir na prevenção do consumo, reforçando estratégias de informação e educação para a saúde personalizadas e adequadas a este grupo etário, e aumentar o preço dos produtos de tabaco são medidas de reconhecida efectividade no início do consumo e na redução do mesmo, em particular nos jovens.

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